Tempos azuis

Por Carlos Oliveira


Esta é a segunda parte da reportagem sobre o Estádio Juscelino Kubitschek de Oliveira.
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Agosto de 1942. No litoral nordestino, um submarino alemão inicia uma série de ataques a embarcações brasileiras. Sob o comando do nazista Harro Schacht, o temido U-507 torpedeia seis navios, deixando mais de 600 mortos nas águas da Bahia e do Sergipe. Os ataques geram pânico e comoção no país, que decide entrar guerra contra Alemanha e Itália.

A declaração de guerra desencadeia diversas ações a quem, pelo motivo que fosse, tivesse relação com os países do Eixo (dentre eles, Alemanha e Itália). Em 31 de agosto, o governo Vargas solta um decreto que exige a extinção de símbolos das nações inimigas. Era hora de o Palestra mineiro abandonar as cores da Itália e adotar uma nova identidade.

Várias assembleias foram convocadas pelo então mandatário palestrino Ennes Cyro Pony. Antes da reunião definitiva, Pony adiantou aos jornais que o novo nome seria Ypiranga, homenageando a Independência do Brasil. O nome não era consenso e, no dia 7 de outubro, veio a decisão final. Por sugestão do ex-presidente Osvaldo Pinto Coelho, foi definido que nome seria Cruzeiro Esporte Clube, uma homenagem à constelação cívica referenciada nos símbolos nacionais.





De Palestra a Cruzeiro. A evolução dos escudos do clube do Barro Preto

“Pressionado, o Palestra mudou de nome para Cruzeiro, demonstrando, por meio das referências aos céus brasileiros inscritas no novo nome e no novo símbolo do clube, a disposição da colônia italiana de adotar o Brasil como sua nova pátria”, aponta o pesquisador Marcelino Rodrigues da Silva. Em seu livro Quem desloca tem preferência, Marcelino revela ainda que os italianos que viviam no Brasil sofreram diversos ataques nesse período, tendo casas e espaços incendiados.

A transição para Cruzeiro aconteceu de forma gradual. A estreia com o novo nome só foi possível em fevereiro de 1943, em um amistoso contra o São Cristóvão, do Rio de Janeiro. Ainda assim, o uniforme não estava pronto e o Cruzeiro teve de jogar com a camisa palestrina. Em um segundo amistoso contra os cariocas, o uniforme cruzeirense pode, enfim, fazer a sua estreia, com a camisa azul com as estrelas soltas, e calção e meias brancas.

Com o clube devidamente “nacionalizado”, ainda faltava alguma coisa. Em uma época em que os times já investiam na revitalização de seus estádios, era hora de o clube do Barro Preto reformar o seu acanhado campo.

Mãos à obra

Após a gestão Cyro Pony, o Cruzeiro passou a ser presidido por Mario Grosso, eleito em dezembro de 1942. Para reformar o estádio celeste, o mandatário defendia uma modificação nos estatutos do clube. Com a mudança, só seriam sócios remidos aqueles que contribuíssem com mil cruzeiros para a remodelação do campo. Após muitas discussões, o Conselho Deliberativo enfim aprovou a emenda de Grosso.

O time fez sua despedida em um amistoso no dia 29 de outubro de 1944. A vitória de 2 a 1 sobre o América, com gols de Alcides e Fogosa, encerrou com chave de ouro os trabalhos do estadinho. Até a reforma ser concluída, o time mandaria suas partidas no Estádio Alameda, do América, e no campo do rival Atlético.

As obras aconteceram no início de 1945. Projetado pelo arquiteto Oscar Ricardo, o estádio ganhou arquibancadas de cimento, uma tribuna de imprensa e teve sua área social reformada. A capacidade saltou de cinco para quinze mil espectadores, que passariam a adentrar o estádio por um dos quatro portões de acesso e encontrariam novas instalações sanitárias e serviço de bar. Para o conforto dos atletas, o estádio contava com um novo gramado, dormitórios, instalações para o departamento médico e um túnel que dava acesso direto ao campo, sem contato com os torcedores.




Estádio pronto, após reforma. Arquivo/EM/D.A Press




Nova arquibancada. Autor desconhecido

De cara nova, o estadinho, como alguns veículos o chamavam, precisava de um nome. Aliás, não era nem mais “estadinho”, já que teve sua capacidade ampliada e agora contava com uma estrutura de primeira. O clube decidiu nomear seu campo de Estádio Juscelino Kubitschek de Oliveira, homenageando o então prefeito de Belo Horizonte.




Entrada do novo estádio. Arquivo/EM/D.A Press

“Juscelino Kubitschek é tão amigo do Cruzeiro, que os diretores do grêmio das cinco estrelas resolveram denominar o seu majestoso estádio ‘Estádio Juscelino Kubitschek de Oliveira’, o que agradou sensivelmente não só aos cruzeirenses como a toda população da capital, porque o grande patrono do Cruzeiro é grandemente querido de todos nós”, anunciava o periódico celeste A Raposa, em uma matéria que celebrava o primeiro ano de vida do novo estádio.




Jornal A Raposa exalta reforma impulsionada por Mario Grosso

Reinauguração





Partida de reinauguração do estádio do Barro Preto. Cruzeiro 1x1 Botafogo. Arquivo/EM/D.A Press

“Realiza-se, finalmente, hoje, o nosso grande sonho: darmos ao Cruzeiro um estádio compatível com as suas tradições e com o que será para o futuro”, anunciou Mario Grosso na solenidade de inauguração. Realizado no dia 27 de junho de 1945, o evento contou com a presença de Rivadavia Corrêa Meyer, presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), e de João Lyra Filho, que presidia o recém-criado Conselho Nacional de Desportos (CND). Quem também participou da inauguração foi o homenageado, o prefeito Juscelino Kubitschek, que elogiou a iniciativa do presidente, agradeceu a homenagem e ainda doou cinco barcos ao clube, para incentivar a prática do remo entre os jovens da cidade.

Finalizadas as solenidades, era hora de o Cruzeiro reinaugurar seu estádio. A bola rolou no domingo, 1º de julho, em amistoso contra o Botafogo. Aos 20 minutos, a equipe azul abriu o placar com Niginho, que, como um bom Fantoni, sabia o caminho para o gol daquele campo. Mas o que era para ser uma estreia perfeita acabou ofuscada por Heleno de Freitas. O Príncipe Maldito marcou aos 38 do segundo tempo e garantiu o empate para os cariocas. Terminou tudo igual no Barro Preto.




O amistoso inaugural rendeu expressivos 91 mil cruzeiros aos cofres azuis. De acordo com o Almanaque do Cruzeiro, era o recorde de renda dos jogos disputados em Minas Gerais até aquele momento, superando a do amistoso entre Atlético e Corinthians, em 1945, de Cr$ 61.300.

Campeão da cidade em 43 e 44, o Cruzeiro seguia firme na disputa pelo tricampeonato, feito que o clube não repetia desde 1930. No JK, bateu Villa Nova e América, os principais adversários da competição, e venceu o Uberaba. O título veio mesmo em Sabará, após vitória sobre o Siderúrgica. Mais uma vez, o clube era tricampeão da cidade.




Vista da arquibancada. Jornal A Raposa de julho de 1946

Partidas noturnas

Para quem hoje respira futebol, seria difícil imaginar noites de quarta e quinta sem as tradicionais partidas do meio de semana. No entanto, era essa a realidade do torcedor cruzeirense até novembro de 1945, quando o Barro Preto teve seu primeiro jogo com iluminação.

Vivendo um bom momento, o Cruzeiro recebeu o América do Rio para estrear o sistema de iluminação do Juscelino Kubitschek. No dia 21 de novembro, em uma quarta-feira, o clube comandado por Chico Trindade bateu a equipe carioca por 4 a 0, com um gol de Niginho e um triplete do ponta-direita Braguinha.

E foi em outro dia de semana que o JK sediou sua primeira partida internacional. Em excursão pelo Brasil, o campeão paraguaio Libertad desembarcou em terras mineiras para uma série de amistosos. O primeiro deles foi contra o Cruzeiro, no dia 3 de janeiro de 46, uma quinta-feira. Era a primeira vez que o clube enfrentaria um adversário estrangeiro.




A partida, que também celebrava os 25 anos de fundação do Cruzeiro, quase terminou em vitória para os belo-horizontinos. Ismael marcou aos 27 do primeiro tempo e Braguinha ampliou aos 15 da segunda etapa. O entrenador Teófilo Spinola promoveu mudanças na equipe paraguaia. Dias entrou no lugar de Esquivel e balançou as redes em duas oportunidades, aos 17 e aos 30 do segundo tempo, igualando o placar no JK.

Tempos de crises

Se tudo parecia correr bem para quem via de fora, os bastidores do Cruzeiro eram de um momento nada agradável. De acordo com Henrique Ribeiro, o clube começava a adentrar uma crise política e acumulava dívidas da reforma do JK. “As despesas com a remodelação do estádio chegaram a Cr$ 500 mil e pesaram nas contas do clube, que também passou a viver uma crise política, após a renúncia do presidente Mario Grosso, em maio [de 1947], no início de seu terceiro mandato consecutivo”, revela o pesquisador.

Quem assumiu a presidência foi Fernando Tamietti. Com a saída do técnico Ítalo Fratezzi, o Bengala, o clube precisava correr atrás de um novo treinador. Foi então que Tamietti surpreendeu a todos ao convidar o técnico de basquete Fu Manchu para o cargo. Manchu não durou muito tempo e ficou até janeiro de 48. Tamietti também balançou e renunciou após quatro meses.

Antônio Cunha Lobo foi eleito logo em seguida. Segundo o Almanaque do Cruzeiro, a política “mão de ferro” do dirigente contribuiu para agravar a crise. Para não abrir muito os cofres, o presidente convidou Niginho para ser o técnico, que, apesar de tudo, fez bom trabalho até o fim de 49. Cunha Lobo, por sua vez, sofria pressão de sócios, torcedores e dos próprios jogadores, que ameaçavam não renovar seus contratos caso o dirigente se candidatasse à reeleição. Cunha Lobo desistiu da candidatura e seu sucessor foi Antônio Alves Limões.

Nova reforma e os anos conturbados

Em 1949, a prefeitura de Belo Horizonte destina uma verba aos clubes da cidade. O Cruzeiro foi beneficiado com Cr$ 2 milhões, que logo foram direcionados para uma nova remodelação do JK, reinaugurado há apenas 4 anos.




Operários trabalhando na nova reforma. Revista Olímpica de maio de 1949

“Obra gigantesca está realizando o presidente Antônio Alves Limões no Barro Preto”, anunciava a Revista Olímpica – O Cruzeiro em foco de abril. Nesta nova remodelação, o JK teve suas gerais reformadas e recebeu novas arquibancadas, além de ganhar novas instalações nos vestiários, na área social e no serviço de bar e restaurante.

Outra novidade foi o alambrado, ou tela, como preferia chamar o presidente Limões. Seguindo o exemplo dos estádios argentinos, do Pacaembu e do recente São Januário, o JK contaria com um alambrado para tentar impedir as invasões de campo.




Presidente Limões mostrando alambrado a um repórter. Foto da Olímpica de maio de 1949

Segundo a mesma revista Olímpica, o estádio veria sua capacidade pular para 18 a 20 mil torcedores, “otimamente instalados”, além de uma arquibancada social para três mil sócios assentados. “Uma obra gigantesca, essa dos cruzeirenses, que por si só imortalizará o trabalho da atual diretoria”, ressaltava a revista, em sua edição do mês seguinte.

De acordo com o Almanaque do Cruzeiro, a verba destinada pela prefeitura poderia ter sido usada na construção de um estádio com maior capacidade, visando arrecadações melhores. “As despesas inviabilizaram o time de futebol, cujos salários foram padronizados a valores muito baixos, impedindo os atletas de se dedicarem exclusivamente ao futebol”, relata a publicação. À exceção de Bené e Abelardo, que viviam de futebol, os jogadores cruzeirenses acumulavam outros empregos para se sustentarem, com trabalhos em fábricas, camisarias e obras.

Em 1950, o Cruzeiro entrou em uma grave crise financeira. Em troca de cachês, o clube disputava amistosos em cidades do interior, para movimentar o caixa. No fim daquele ano, os jogadores tiveram seus vencimentos padronizados na base do salário mínimo e o plantel júnior foi profissionalizado.




Estádio ganhou até cadeiras de marmorite. Novas estruturas não condiziam com o desempenho em campo. Olímpica de maio de 1949

A crise se agravou dois anos depois, quando o plantel profissional foi dispensado e a diretoria efetivou o time júnior, incluindo o treinador Colombo. O “time dos brotos”, como parte da imprensa o apelidou, terminou a competição da cidade em quinto lugar, conquistando 8 pontos em 16 possíveis.

De modo geral, a década de 1950 foi um tanto conturbada para o clube do Barro Preto. Em 54, o elenco sequer possuía reservas. Niginho, além de técnico, era também diretor de futebol, supervisor e preparador físico. A confusão era tanta que o escrete foi apelidado pela torcida de “time do lero-lero”. Depois da saída de Niginho, os próprios jogadores assumiram o comando técnico.

A redenção para todo este período de sofrimento cruzeirense veio em 1959, quando o clube quebrou o jejum de 14 anos e venceu o Campeonato Mineiro. Também em 59, o Cruzeiro teve seu título de 1956 reconhecido, uma vez que o Atlético escalara um jogador irregular na disputa daquele ano.




Arquibancadas tomadas em um clássico contra o Atlético, após as novas remodelações. Cruzeiro venceu por 2 a 1. Olímpica de julho/agosto de 1949

Os últimos anos de JK

Os últimos anos do Estádio Juscelino Kubitschek. Clique para ler a terceira parte da reportagem